Escalada militar e deterioração humanitária na Faixa de Gaza
A situação na Faixa de Gaza voltou a se agravar com novos episódios de violência armada, deslocamentos forçados e tragédias humanitárias envolvendo civis palestinos. Disparos atribuídos ao Exército israelense resultaram na morte de um jovem palestino e deixaram vários feridos na região oeste de Khan Younis, no sul do território, em áreas onde não havia presença militar israelense declarada. Paralelamente, forças israelenses avançaram com a ampliação da chamada “linha amarela”, uma demarcação de segurança imposta unilateralmente, aumentando as restrições de circulação e o risco para a população civil.
Esses acontecimentos ocorrem em meio a uma crise humanitária sem precedentes, marcada por escassez de abrigo, destruição massiva de infraestrutura, chuvas intensas e incêndios em acampamentos improvisados que abrigam famílias deslocadas.
Mortes e feridos após disparos em Khan Younis
Na quinta-feira, um jovem palestino morreu após ser atingido por tiros e levado a um hospital no sul de Gaza. Outras pessoas ficaram feridas no mesmo incidente, incluindo uma mulher e uma criança, cujos ferimentos foram considerados graves. Os disparos ocorreram na parte ocidental de Khan Younis, fora das zonas oficialmente ocupadas por tropas israelenses, o que aumentou a preocupação sobre a segurança de civis em áreas supostamente não militares.
Khan Younis tem sido uma das regiões mais afetadas pela atual fase do conflito. O avanço das forças israelenses, aliado ao uso de artilharia pesada e à presença de posições militares próximas a áreas residenciais, tem tornado a cidade um dos pontos mais instáveis da Faixa de Gaza.
O eixo de Murad e a intensificação das operações militares
Um dos principais focos da escalada recente é o chamado eixo de Murad, uma faixa estratégica que separa Rafah do restante da Faixa de Gaza. Essa área passou a ser utilizada como plataforma para operações militares direcionadas não apenas a Rafah, mas também às regiões sul e leste de Khan Younis.
Artilharia posicionada ao longo desse eixo disparou projéteis contra bairros densamente povoados, e explosões foram ouvidas em várias partes da cidade. Além disso, disparos provenientes de quartéis improvisados em edifícios residenciais remanescentes ao norte de Rafah feriram moradores que viviam em tendas próximas, agravando ainda mais a vulnerabilidade dos deslocados.
Incursões terrestres e expansão da “linha amarela”
As forças israelenses também realizaram incursões na parte oriental de Khan Younis, considerada uma das frentes mais voláteis do conflito. Nessa área, existem pelo menos seis localidades sob ocupação, que juntas representam mais da metade do território urbano da cidade e abrigam cerca de 150 mil pessoas.
Durante essas operações, soldados ergueram barreiras de terra e instalaram blocos de concreto amarelos ao longo do lado leste da rua Salah al-Din, estendendo a chamada “linha amarela”. Essa linha funciona como uma zona de exclusão, restringindo o acesso de civis e ampliando o controle militar sobre áreas anteriormente habitadas.
Para a população local, essa expansão significa mais deslocamentos forçados, perda de acesso a serviços básicos e aumento do risco de confrontos diretos.
Incêndio em abrigo mata mãe e criança em Gaza City
Enquanto a violência armada continua, tragédias relacionadas às condições precárias de vida também fazem vítimas. Em Gaza City, uma mãe e seu filho morreram após um incêndio atingir uma tenda que abrigava famílias deslocadas em um centro improvisado no bairro de Al-Daraj. Uma terceira pessoa ficou ferida.
As equipes de defesa civil conseguiram recuperar os corpos e evacuar o ferido, mas a causa do incêndio ainda não foi esclarecida. Incidentes como esse tornaram-se frequentes devido à falta de infraestrutura segura, ao uso de métodos improvisados para cozinhar e aquecer, e à ausência de eletricidade regular.
Falta de abrigo seguro e risco constante de incêndios
Centenas de milhares de palestinos vivem atualmente em tendas ou abrigos temporários espalhados por toda a Faixa de Gaza. A destruição de bairros inteiros e o deslocamento em massa deixaram a maioria da população sem moradias adequadas.
Esses abrigos improvisados carecem de medidas básicas de segurança contra incêndios. Com a escassez de combustível e energia elétrica, muitas famílias recorrem a fogueiras, velas ou equipamentos improvisados, aumentando significativamente o risco de acidentes fatais, especialmente entre crianças e idosos.
Chuvas intensas e alagamentos em áreas de deslocados
Além dos incêndios, as condições climáticas agravaram ainda mais a situação humanitária. Chuvas fortes recentes provocaram alagamentos extensos em áreas que concentram grandes números de deslocados, como Al-Mawasi. A água acumulada formou poças e áreas pantanosas, invadindo tendas e estradas.
As autoridades locais enfrentam sérias limitações e não conseguem oferecer serviços básicos de drenagem ou assistência adequada. Mesmo sistemas de chuva considerados moderados foram suficientes para causar danos significativos, evidenciando a fragilidade das condições de vida nos acampamentos.
Restrições à entrada de materiais essenciais
A crise é agravada pelas restrições contínuas à entrada de materiais fundamentais para a proteção contra o inverno, como lonas reforçadas, madeira, aquecedores e itens de reparo para residências danificadas. Sem esses recursos, as famílias permanecem expostas ao frio, à chuva e a riscos constantes de doenças.
A combinação de bloqueio, destruição e falta de acesso a suprimentos básicos tem criado um cenário de emergência prolongada, com impactos profundos na saúde física e mental da população.
Impacto humano do conflito em números
Desde o início da ofensiva militar em outubro de 2023, mais de 71 mil palestinos perderam a vida e mais de 170 mil ficaram feridos. Mesmo após a entrada em vigor de um cessar-fogo frágil, centenas de pessoas continuaram sendo mortas ou feridas.
A maioria da população de Gaza foi deslocada ao menos uma vez, e milhares de pessoas continuam desaparecidas sob os escombros. A destruição da infraestrutura civil — incluindo hospitais, escolas, redes de água e eletricidade — é considerada uma das mais extensas dos tempos modernos.
Crise humanitária, fome e responsabilização internacional
Além das ações militares diretas, o bloqueio prolongado contribuiu para uma grave crise alimentar. A escassez de alimentos e água potável levou a mortes relacionadas à fome, principalmente entre crianças, e colocou centenas de milhares de pessoas em risco iminente.
Apesar da ampla condenação internacional, medidas efetivas de responsabilização permanecem limitadas. Investigações em instâncias judiciais internacionais estão em andamento, enquanto a população civil continua pagando o preço mais alto do conflito.